Nutrição e envelhecimento

envelhece

1. INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define o idoso como “uma pessoa com 65 anos ou mais nos países desenvolvidos, e 60 anos nos países em desenvolvimento”. O aumento dessa população vem sendo observado no mundo inteiro, o que ocorre em função da melhoria na qualidade de vida, somado ao avanço da ciência e tecnologia aplicados na área da saúde. Segundo o IBGE, estima-se que no Brasil, entre 1950 e 2025, a quantidade de idosos aumentará 16 vezes contra cinco vezes da população total.

É fundamental que o idoso apresente uma dieta equilibrada em carboidratos, proteínas, gorduras. O atendimento das necessidades de vitaminas e minerais é essencial, pois esses nutrientes, além de atuar regulando diversas funções no organismo, agem como antioxidante e previnem o envelhecimento e aparecimento de doenças. Além disso, é importante a refeição apresentar aspectos agradáveis, como a cor, sabor, aroma e textura, e que seja priorizado o prazer no momento da refeição, atendendo as preferências do idoso.

A nutrição e a alimentação na terceira idade ainda são áreas pobres em investigação, sendo pouco exploradas e não tendo recebido a atenção que lhes é devida. Em alguns países desenvolvidos, muitas pesquisas têm sido feitas, visando a identificar o consumo alimentar de idosos, porém na América Latina, particularmente no Brasil, essas investigações praticamente inexistem.

Atualmente, sabe-se que as principais causas de morte entre idosos são previsíveis e passíveis de prevenção, através de ações relativamente baratas. Estudos mostram que derrames cerebrais e os infartos são as enfermidades que mais matam idosos no país, e considera-se que é possível reduzir as ocorrências através de um programa efetivo de controle da pressão arterial ou ainda pela introdução de hábitos saudáveis. Os programas de controle para idosos podem não apenas evitar as mortes precoces, mas também reduzir o sofrimento com as seqüelas de algumas doenças.

O envelhecimento da população brasileira surge acompanhado de uma transição social. A busca por asilos surge como uma alternativa para as famílias de baixa renda ou para idosos que perderam seus vínculos familiares. Porém, a mudança para a instituição impõe alterações na rotina diária desses idosos, que podem acarretar modificações de hábitos alimentares e fragilizar a saúde destes indivíduos.

1.1. Alterações fisiológicas e nutricionais  do envelhecimento:

1.1.1.   Alterações fisiológicas:

As mudanças fisiológicas verificadas nos idosos refletem não apenas o processo de evelhecimento mas também os efeitos de anos em exposição a agentes ambientais, além de processos de doença. Em geral, há um declínio na estrutura e funcionamento do corpo com idade avançada. O declínio resulta na capacidade de reserva diminuída dos vários  sistemas orgânicos, que consequentemente produzem capacidades homeostásica reduzidas, tornando o idoso mais vulnerável a estressadores, tais como as doenças, trauma, cirurgia,  medicações e mudanças ambientais (PORTH,  2004)

Pele:

A pele é constituída por duas camadas, a epiderme e a derme. A epiderme é formada puramente de células, enquanto a derme é constituída por tecido conjuntivo que contém fibras colágenas e elásticas que dão elasticidade e firmeza à pele. Com o envelhecimento, essas fibras alteram-se e a elastina torna-se porosa, perdendo, assim, a elasticidade e dando o aspecto da pele do idoso, evidenciado pelas rugas. As espessuras da pele e do subcutâneo diminuem, os vasos sangüíneos rompem-se com facilidade, propiciando o aparecimento de equimoses aos menores traumas e predispondo a hipotermia em condições ambientais de grande resfriamento (CUCE; GOMES, 2002). São também comuns manchas salientes e escuras, conhecidas como queratose seborréica. Essas alterações são intensificadas nas áreas de pele expostas a luz (PORTH, 2004).

A pálpebra inferior tende a ficar com formato de bolsa, por apresentar edema juntamente com herniação de gordura (CUCE; GOMES, 2002).

As glândulas sudoríparas e sebáceas diminuem sua atividade, resultando em pele seca e áspera, mais sujeita às infecções e mais sensível às variações de temperatura. Há diminuição da regulação térmica pela menor sudorese, o que pode levar ao choque térmico em situações de grande aquecimento (PORTH, 2004).

O número de melanócitos reduz, o que resulta em palidez da pele do idoso e também sofrem alterações no seu funcionamento em certas regiões como face e dorso da mão, levando à formação de manchas hiperpigmentadas, marrons, lisas e achatadas. O envelhecimento causa modificação na pilificação corpórea. Há diminuição do numero de pêlos, exceto em algumas regiões como narinas, orelhas e sobrancelhas(PORTH, 2004).

As unhas do idoso tornam-se opacas, frágeis, finas e sem brilho (PORTH, 2004). Apresentam diminuição da velocidade de crescimento, a partir da terceira década, e estrias longitudinais em 67% das pessoas com mais de 70 anos. Pode também ocorrer onicodistrofia e onicogrifose (CUCE, GOMES, 2002).

Musculatura:

O envelhecimento é acompanhado por declínio progressivo na altura, especialmente entre as mulheres mais idosas. Este declínio em altura é atribuído principalmente à composição da coluna dorsal. A composição do corpo também muda. A quantidade de gordura aumenta, e a massa corpórea magra e água corpórea total diminuem com o avanço da idade (PORTH, 2004).

A perda de células musculares com a idade depende do grau de atividade física que o indivíduo exerce, de seu estado nutricional e do aspecto hereditário. Os diferentes músculos sofrem o processo de atrofia de modo diferente no mesmo indivíduo. Os músculos que se usam menos atrofiam-se mais (SOUZA, 2002).

A esse declínio muscular relacionado à idade designa-se sarcopenia, termo que denota o complexo processo do envelhecimento muscular associado à diminuição da massa, da força, e da velocidade de contração. A etiologia da sarcopenia é multifatorial, envolvendo alteração no metabolismo do músculo, alterações endócrinas e fatores nutricionais e genéticos. O grau de sarcopenia não é o mesmo para diferentes músculos e varia entre os indivíduos. É importante destacar que o declínio muscular é maior nos membros inferiores, o que compromete o equilíbrio, a marcha e a ortostase (SOUZA, 2002).

Microscopicamente, encontra-se no citoplasma da célula muscular do idoso acúmulo de substância eletrodensa com estrias longitudinais, de significado desconhecido e miofibrilas desorganizadas (SOUZA, 2002).

Sistema Respirtório:

As alterações determinadas pelo envelhecimento afetam desde os mecanismos de controle até as estruturas pulmonares e extra-pulmonares que participam do processo de respiração (PORTH, 2004).

O processo de envelhecimento causa uma série de alterações fisiológicas que acometem a caixa torácica, os pulmões e a musculatura respiratória, acarretando prejuízo à função pulmonar de caráter variável e dependente de fatores endógenos exógenos (PORTH, 2004).

O envelhecimento modifica a constituição e forma do tórax. Observam-se redução da densidade óssea e conseqüente redução e achatamento das vértebras; redução dos discos intervertebrais; calcificação das cartilagens costais e das articulações costo-esternais. Essas modificações determinam o enrijecimento da caixa torácica, tornando mais importante a ação da musculatura abdominal e diafragmática na ventilação (SOUZA, 2002)

Nos pulmões, observa-se redução de peso de aproximadamente 20% entre os 30 e os 80 anos. Sua complacência encontra-se reduzida. A menor força de retraimento pulmonar e menor capacidade de expansão torácica acabam por determinar menor pressão negativa intrapleural e conseqüente menor distensão dos alvéolos e pequenas vias aéreas (CARVALHO; LEME, 2002).

Sistema Cardiovascular:

As principais alterações cardiovasculares associadas ao envelhecimento ocorrem no miocárdio, no nó sino-atrial, nas valvas cardíacas e vasos sangüíneos, caracterizando modificações tanto de ordem anatômica quanto funcional (PORTH, 2004).

Contrariamente ao que ocorre em outros órgãos, o processo de envelhecimento no miocárdio ocasiona um aumento do tamanho do coração e da es-pessura do ventrículo esquerdo. Isso ocorre em decorrência do aumento do tamanho dos miócitos e aumento do colágeno intercelular, apesar da redução do número de miócitos. A perda de miócitos é substituída por tecido fibroso e pode ser devida à perda de capilares da parede cardíaca (SOUZA, 2002).         Determinadas alterações anatômicas que estão ligadas a senescência são: o acúmulo de gordura, principalmente nos átrios e septo intercavitário; a fibrose disseminada não dependente de coronariopatias; o depósito de lipofuscina em fibras cardíacas; a hipertrofia do miocárdio ventricular, principalmente da câmara esquerda; calcificação do miocárdio e amiloidose senil (SOUZA, 2002).

Sistema Nervoso:

O sistema nervoso é o sistema biológico mais comprometido com o processo do envelhecimento, pois é responsável pela vida de relação (sensações, movimentos, funções psíquicas, entre outros) e pela vida vegetativa (funções biológicas internas).
As alterações mais importantes do envelhecimento ocorrem no cérebro. O cérebro diminui de volume e peso. Nota-se ema redução de 5% aos 70 anos e cerca de 20% aos 90 anos de idade. Ocorre certo grau de atrofia cortical, com conseqüente aumento volumétrico do sistema ventricular, que é bem evidenciado pelo estudo tomográfico (PORTH, 2004).

A redução da massa encefálica está associada à perda neuronal, que não é uniforme em todas as áreas cerebrais. Essa perda ocorre especialmente no córtex dos giros pré-centrais, que é a área motora voluntária, giros temporais e também no córtex do cerebelo.
Microscopicamente, nota-se, com o envelhecimento, o acúmulo de um pigmento, a lipofucsina, dentro das células nervosas. Esse está ausente nas células nervosas dos recém-natos. Entretanto, não é aceito por todos que a presença deste pigmento seja prejudicial ao funcionamento dos neurônios.(PORTH, 2004).

Com o envelhecimento, os dendritos dos neurônios deformam-se e diminuem de número em várias áreas do córtex, o que reduz a área de superfície para sinapses. Essas alterações podem evoluir até a morte completa da célula (SOUZA, 2002).

No giro do hipocampo do idoso, que é uma área associada à memória para fatos recentes, encontram-se as denominadas placas neuríticas e os emaranhados neurofibrilares. Esses são massas de neurofibrilas no interior do citoplasma neuronal, enquanto as placas neuríticas são massas de proteína amilóide situados entre os neurônios. O significado funcional desses elementos não é conhecido. No entanto, são observados em grande quantidade nos cérebros de pacientes com Alzheimer e doença de Parkinson. Em alguns idosos, o número desses elementos é pequeno e parece não alterar as funções celulares (SOUZA, 2002).

Na medula espinal, o processo de perda neuronal é observado após os 60 anos. A maneira como a perda de células nervosas afeta a função do sistema nervoso varia entre as pessoas e depende de vários fatores, entre os quais da região em que ela é mais intensa. Como conseqüência da perda de células nervosas, há um menor número de axônios nos nervos e também em sistema nervoso central (SOUZA, 2002) .

Função Renal:

Os estudos do envelhecimento renal têm apontado para uma contínua perda da função renal, iniciando-se a partir da quarta década, registrando cerca de 0,8 a 1% ou 0,8 a 1mL/min do ritmo de filtração glomerular (RFG) para cada ano de vida. Assim, a depuração de creatinina de 140mL/min/1,73m2 aos trinta anos pode reduzir para 97mL/min/1,73m2 aos 80 anos. O declínio do RFG não se acompanha de elevação da concentração de creatinina sérica. Essa concentração depende da massa muscular do indivíduo e é sabido que a massa muscular reduz com o envelhecimento. Os níveis plasmáticos de creatinina só se elevarão quando em adiantado comprometimento da função renal e, quando se toma por base a avaliação exclusiva da creatinina plasmática, pode ter-se a falsa idéia de um nível de função renal normal. A importância clínica dessa mudança na interpretação dos valores plasmático da creatinina está quando do uso de medicações de eliminação por via renal (NUSSENZIG, 2002).

Sistema imunológico:

A função imune declina com a idade. O envelhecimento humano é associado ao progressivo declínio na função imune e conseqüente aumento na freqüência de infecções. A maior parte das alterações imunológicas tem sido relacionada com a involução e atrofia do timo que, de forma gradual, perde até 95% de sua massa nos primeiros 50 anos de vida (PORTH, 2004).

Observam-se principalmente alterações dos linfócitos da linhagem T, responsáveis pela resposta imune celular, que são influenciados pelo timo e iniciam a resposta imune na presença de antígenos estranhos no corpo e também modulam a resposta imune para prevenir auto-imunidade e crescimento de tumores. Há redução da proliferação de linfócitos T (com exceção para os linfócitos T de memória); redução da ativação de linfócitos T auxiliares, citotóxicos e natural killer (NK) e redução da produção de algumas interleucinas, como a interleucina 2 (potente estimulador de proliferação de células T). Isso facilita o aumento da auto-anticorpos, elevando o risco do desenvolvimento de doenças autoimunes. Quanto aos linfócitos B, responsáveis pela resposta imune humoral (anticorpos), estudos mostram pouca ou nenhuma alteração nos idosos, com poucas modificações nos níveis de anticorpos (VEIGA, 2006).

Sistema Digestório:

O sistema digestório, assim como os demais sistemas, sofre modificações estruturais e funcionais com o envelhecimento. As alterações ocorrem em todo trato gastrintestinal da boca ao reto (PORTH, 2004).

Boca:

A perda de dentes não é uma conseqüência inevitável do envelhecimento. Sem dúvida, as alterações involutivas que atingem com freqüência os tecidos da cavidade bucal do idoso geram menor capacidade de sustentação e menor eficiência da defesa imunitária da cavidade oral, possivelmente facilitando a maior proliferação bacteriana e conseqüente agressão ao aparelho periodontal (PORTH, 2004). Tudo isso, somado à falta de medidas preventivas terapêuticas, osteoporose e tabagismo culmina na perda dentária (ALENCAR, CURIATI, 2006).

A ausência de peças dentárias e a utilização de próteses interferem na capacidade e eficiência do processo de mastigação, influenciando negativamente na escolha dos alimentos. Percebe-se um consumo menor de carnes, frutas e vegetais e um aumento da ingestão de doces, resultando numa perda da qualidade da dieta, podendo interferir com uma igestão inadequada de energia, ferro, vitaminas, principalmente vitamina C, folato e betacaroteno (FRANK; SOARES, 2002).

As alterações involutivas determinam atrofia e perda de elasticidade que vão desde a mucosa, passando pelos tecidos subjacentes e de sustentação, pelas estruturas musculares, até alcançar as estruturas ósseas (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Não são observadas alterações na função mastigatória com o envelhecimento. Uma dentição estável e a falta de problemas médicos que afetem a produção salivar ou o paladar resultam na manutenção dessa função. Saúde bucal deteriorada, com perda de dentes, pode ser um fator etiológico para comprometimento do estado nutricional e perda de peso no idoso. Pequenas alterações na percepção dos sabores podem ocorrer como resultado da atrofia das papilas linguais (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Esôfago:

Com o envelhecimento, a musculatura lisa pouco se altera, porém, há uma importante e progressiva redução de sua inervação intrínseca. Essa alteração é a maior responsável pelas modificações da motilidade observadas no idoso. O conjunto de alterações observadas foi denominado presbiesôfago e inclui: aumento da freqüência de contrações terciárias (não propulsivas), a presença de aperistalse e distúrbios funcionais do esfíncter esofágico superior e inferior. O presbiesôfago é a principal causa da disfagia esofágica e caracteriza-se por menor amplitude de contrações peristálticas síncronas que conduzem o alimento e pela presença de contrações assíncronas que dificultam a progressão (ALENCAR, CURIATI, 2006).

O presbiesôfago e os episódios de refluxo gastroesofágico com duração mais prolongada tornam o deglutir do idoso dificultado, com atraso no seu esvaziamento, aumentando o risco de aspirações. Essas observações têm implicações clínicas importantes, como a necessidade de administrar medicamentos por via oral acompanhados de razoável quantidade de líquidos, na posição ortostática. Ulcerações esofágicas podem ocorrer com o uso de certos medicamentos, como o cloreto de potássio, por retardo do esvaziamento gástrico (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Outras observações de alterações do envelhecimento esofágico são: maior prevalência de hérnia do hiato por flacidez muscular do hiato diafragmático, aumento do limiar da dor no esôfago, razão pela qual a gravidade dos sintomas dolorosos não se elaciona com a gravidade da lesão esofágica causada pelo refluxo ácido do estômago (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Estômago:

Tem-se notado também um declínio na produção da secreção ácida do estômago, secundário à diminuição do número de células parietais, relacionado com a atrofia gástrica. A acloridria aumenta com a idade e é observada em mais de 20% dos indivíduos com mais de 70 anos. Pode ocorrer deficiência de ferro como conseqüência da acloridria, já que a absorção desse íon necessita de meio ácido. É possível que a atrofia gástrica, a metaplasia e a neoplasia gástrica estejam relacionados ao H. pylorii e não esteja presente em idosos completamente saudáveis. A prevalência da colonização por essa bactéria é maior nas fases mais avançadas da vida, podendo chegar a 75%. O tempo de esvaziamento gástrico encontra-se discreta a moderadamente aumentado, podendo prejudicar a digestão e interferir na absorção de medicamentos (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Pâncreas:

O pâncreas sofre alterações tanto estruturais quanto funcionais com o envelhecimento. Seu peso reduz-se de uma média de 60 ± 20g para menos de 40g na nona década de vida. Há redução da capacidade de secreção de lipase e de bicarbonato, com manutenção da reserva funcional pancreática, que parece estar associada com a tolerância reduzida para refeições ricas em lipídios e dificuldade na absorção de vitaminas lipossolúveis. É também descrita redução de secreção de insulina (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Fígado e vesícula biliar:

O fígado sofre com os efeitos do envelhecimento, especialmente nos que interferem com a metabolização de medicações. O peso do fígado reduz de 2,5% do peso corporal total, num homem jovem, para 1,6% num nonagenário, assim como seu fluxo sanguíneo (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Sobre a função secretora, nota-se redução da secreção de albumina, colesterol, ácidos biliares e aumento da secreção de alfa-ácido glicoproteínas. Estudos comparando jovens com idosos saudáveis observaram redução de cerca de 37% na sintetize protéica total pelo fígado dos 69 aos 91 anos (ALENCAR, CURIATI, 2006).

A vesícula biliar tem seu esvaziamento dificultado com o processo de envelhecimento. É descrito aumento do colesterol contido na bile, assim como uma alta prevalência de cálculos de via biliar em indivíduos octogenários (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Intestino:

A absorção de lipídios apresenta-se discretamente reduzida, especialmente em situações de sobrecarga, e parece estar relacionada à redução de secreção de lipase e sais biliares e capacidade reduzida de formação de triglicérides pela mucosa.
Alguns estudos mostram que outros nutrientes podem ter sua absorção reduzida com o envelhecimento como: vitamina D, ácido fólico, vitamina B12, cálcio, cobre, zinco, ácidos graxos e colesterol. A absorção de outros pode estar aumentada, como é o caso da glicose e da vitamina A. Os resultados, no entanto, são controversos e de significância clínica questionável (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Cólon:

A maior freqüência de constipação entre os idosos pode ser explicada por uma série de fatores extrínsecos ao cólon, como a redução da atividade física, dieta pobre em fibras e líquidos, perda de eficácia prensa abdominal, por alterações da coluna que levam a uma aproximação do gradil costal às cristas ilíacas e fraqueza da musculatura da parede abdominal. Fatores intrínsecos, como diminuição da motilidade colônica, do tônus muscular e da função motora do cólon ainda precisam ser melhor estudados (ALENCAR, CURIATI, 2006).

Visão:

Há um declínio geral na acuidade visual com a idade, e quase todas as pessoas com mais de 65 anos precisam de correção visual, para ler a distância. O declino ocorre como resultado de diâmetro pupilar menor, perda de poder de refração do cristalino e aumento na dispersão da luz. O problema visual mais comum em idosos é a presbiopia ou dificuldade de enfocar objetos próximos. Ela é causada principalmente pela elasticidade diminuída do cristalino e atrofia do músculo ciliar (PORTH, 2004).

Audição:

A perda de audição é comum entre os idosos, e algum grau de prejuízo é quase inevitável com o avanço da idade. Foi relatado que 25% das pessoas independentes com 65 a 74 anos de idade e 40% das com 75 anos ou mais têm prejuízos auditivos, tendo até 70% dos idosos institucionalizados dificuldades de audição (PORTH, 2004).

Paladar e olfato:

O olfato declina com o envelhecimento, possivelmente como resultado da atrofia generalizada dos bulbos olfativos e perda moderada dos neurônios olfativos (PORTH, 2004).

O sentido do paladar diminui com a idade, mas se acredita que nos idosos é menos afetado do que o olfato. Como o paladar e o olfato são necessários para saborear um alimento, os idosos podem não ter tanto prazer em comer quanto na sua juventude (PORTH, 2004).

1.1.2.   Fatores de Risco para o Estado Nutricional do Idoso:

Os fatores de risco na nossa sociedade estão agrupados pela sua área de abrangência, de forma que possibilitem a identificação da magnitude do problema (FRANK; SOARES, 2002).

1.1.2.1.   Fatores socioeconômicos:

ü      Ingestão Inadequada de alimentos:

No que se refere aos idosos, a ingestão inadequada de alimentos constitui um risco nutricional, devido à obtenção e à forma de preparo do alimento (FRANK; SOARES, 2002).

A inadequação de nutrientes pode estar relacionada com a renda mensal per capita dos idosos e reflete no consumo de alimentos (os grupos mais afetados são leite e derivados, frutas e carnes) que está diretamente relacionado com o nível de renda dos idosos (FRANK; SOARES, 2002).

A situação de pobreza está relacionada com o estado nutricional devido ao difícil acesso aos alimentos, levando os idosos a uma pequena variedade de escolha. Ale disso, a baixa renda dificulta o acesso a serviços básicos (saúde, moradia, entre outros) e acesso aos medicamentos (FRANK; SOARES, 2002).

1.1.2.2 .   Fatores Psicossociais:

O conhecimento dos fatores psicossociais pelo nutricionista é de suam importância na intervenção alimentar e nutricional do idoso. Muitas vezes, a relação do idoso com a alimentação fica afetada pelas desordens afetivas que os idosos são acometidos, determinando, assim, seu comportamento alimentar, como a perda de amigos e parentes próximos, isolamento social, ausência de um papel social que o valorize (FRANK; SOARES, 2002).

O isolamento social e a solidão fragilizam o idoso e o tornam susceptível a influências externas, enquanto a baixa estima e a imagem corporal negativa aumentam a susceptibilidade de influência da pessoa em relação aos  fatores internos, afetando a aceitação da alimentação pelo idoso devido a não estar estimulado, em função de estar só ou devido a presença de conflitos familiares;o idoso pode agir reduzindo a quantidade ingerida ou não se interessando em se alimentar, fazendo opção por alimentos industrializados de rápido preparo (FRANK; SOARES, 2002).

A depressão é freqüentemente diagnosticada nos idosos, associando ao estado nutricional pela redução da ingestão de nutrientes. A falta de apetite é um sintoma que sugere a depressão (PORTH, 2004).

Todas as ações praticadas em torno da alimentação, como selecionar os alimentos; preparar; seguir ou não a orientação de uma dieta; a relação cognitiva com o alimento; o significado simbólico da “comida” enquanto reflexo do modo de pensar, sentir e interagir no interior das relações sociais são exemplos que caracterizam o comportamento alimentar na terceira idade (FRANK; SOARES, 2002).

1.1.3. Necessidades Nutricionais:

Em indivíduos idosos geralmente ocorre um declínio na função dos órgãos. Dessa forma pode-se esperar que muitas dessas alterações na função normal influenciem as necessidades nutricionais do indivíduo (SHILLS, 2006).

Energia:

Nos idosos, assim como em toda a população, a quantidade energética ingerida na alimentação é fundamental para manter um estado nutricional adequado. Uma alimentação diversificada, com alimentos de diferentes fontes, oferece os nutrientes necessários para uma nutrição equilibrada, desde de que ingeridos na quantidade recomendada para suprir os gastos energéticos (SOUZA, 1998).

As necessidades protéicas, calóricas e de lipídeos diárias não são muito diferentes das de grupos mais jovens de pessoas. Deve-se ter o cuidado de adequar a dieta para os indivíduos com dificuldade de mastigação e deglutição. As restrições dietéticas, decorrentes de doenças específicas, como a diabetes ou das insuficiências de órgãos, devem ser respeitadas, o que não significa que a alimentação não possa ser saborosa. Eventualmente será mais importante recuperar ou preservar o estado nutricional de um idoso doente, prestando a atenção no prazer da alimentação e na conservação do apetite, do que respeitar restrições dietéticas muito rígidas (FRANK; SOARES, 2002).

O fracionamento das refeições, assim como a diminuição do seu volume contribuem para o processo de digestão, absorção e aproveitamento dos alimentos. Recomenda-se o consumo de quatro a seis refeições diárias. Além disso, é importante a refeição apresentar aspectos agradáveis, como a cor, sabor, aroma e textura. (FERREIRA, 2004)

A redução na massa magra corpórea e a atividade física estão associadas com a necessidade total de energia. O metabolismo basal reduz cerca de 10% até os 60 anos e aumenta com passar da idade, influenciando diretamente com a diminuição do gasto energético (FERREIRA, 2004).

O gasto energético diário é estimado mediante a soma do metabolismo basal e as atividades físicas. Para determinar a taxa metabólica basal recomenda-se a utilização da equação da Organização Mundial da Saúde, OMS, 1996 que considera o peso corporal. A energia gasta com a atividade física pode ser mensurada e avaliada em tabelas com o gasto energético por tipo de atividade. (SHILLS, 2006)

Proteína:

Os idosos apresentam diminuição na síntese e degradação protéica, além de uma menor massa magra, assim, o fornecimento protéico é fundamental (FERREIRA, 2004).

Dietas ricas em proteína podem ser menos digeridas e absorvidas no idoso, a julgar por um pequeno aumento no conteúdo de nitrogênio fecal em resposta a uma carga de proteína. Porém, são poucas as informações disponíveis sobre alterações da absorção de aminoácido e peptídeos no idoso em quantidades maiores que o usual (SHILLS, 2006).

A RDA atual de protéina (0,8 g/kg/dia) é adequada para idosos quando igestões ecssivas de energia são observadas (SHILLS, 2006).

Carboidrato:

A absorção de carboidrato pode ser ligeiramente prejudicada com o avanço da idade, embora a função renal diminuída possa interferir na interpretação de resultados  de testes “de absorção” baseados na excreção urinária (SHILLS, 2006).

Não existe RDA de carboidrato na dieta. Entretanto, o Departamneto de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a Associação Americana de Cardiologia e a Sociedade Americana de Câncer , entre outros, recomendam que o carboidrato da dieta constituam de 55 a 60% das calorias, com um aumneto na proporção de carboidratos complexos para açúcares simples (SHILLS, 2006).

Gordura:

Quando medidas em níveis normais de consumo a digestão e absorção de gordura no idoso são equivalentes às dos  adultos jovens. Mas, em níveis elevados na dieta (120g/dia), os idosos mostraram ligeiramente menos absorção de gordura que os adultos jovens, pessoas institucionalizadas podem abrsover ainda menos (SHILLS, 2006).

Não há uma RDA para gordura total. Todavia, é amplamente admintido que uma prudente dieta com 30% ou menos de calorias na forma de gordura (menos de 10% de ácidos graxos saturados, 10 a 15% monoinsaturados e não mais que 10% polinsaturados) pode se tão importante no idoso quanto em adultos jovenspara a prevenção ou melhoria de doenças crônicas tais como cardíaca ou câncer (SHILLS, 2006).

Fibra:

Substâncias essenciais para o bom funcionamento intestinal, além de terem ação no retardo do esvaziamento gástrico, promovendo aumento da sensação de saciedade, e interferirem na taxa de absorção de nutrientes como a glicose e o colesterol (OLIVEIRA, 2003).

No idoso é muito freqüente a obstipação, ocasionada, por um lado, pela atonia do tubo digestivo e pela diminuição das secreções digestivas e, por outro lado, pela falta de fibra. Esta falta de fibra obriga ao cálculo da quantidade de fibra fornecida pelos GRUPOS IV e V  e dos alimentos mais indicados (pão de mistura, vegetais verdes, e frutos) para se conseguir um equilíbrio em fibra (FRANK; SOARES, 2002).

Pouco se sabe a cerca das necessidades de fibra dietética dos adultos ou pessoas idosas. Entretanto, os vários tipos de fibra dietética encontradas em uma dieta mista têm diferentes efeitos mecânicos e metabólicos no trato gastrointestinal. As recomendações de consumo de fibra para o idoso podem ser as mesmas que para o adulto, cerca de 25g/dia (SHILLS, 2006).

Liquido:

Nos idosos, tão ou mais freqüente do que a desnutrição é a desidratação, que deverá ser apropriadamente diagnosticada e corrigida pelos que os tiverem assistindo. A alimentação do idoso obedece aos mesmos princípios da de outras faixas etárias. A atenção especial que requerem algumas particularidades do envelhecimento, não cria nenhuma dificuldade ou cuidado extraordinário (FRANK; SOARES, 2002).                                                                           A água deve merecer atenção especial, principalmente nesta faixa etária, na qual a desidratação é o distúrbio hidroeletrolítico mais comum (FERREIRA, 2004).                           A desidratação entre pessoas idosas relaciona-se com as seguintes causas básicas: a utilização de medicamentos que induzem ao aumento do volume urinário diário, como diuréticos e anti-hipertensivos e a redução na sensibilidade da sede, mediada pelo cérebro. Além dos já citados, o envelhecimento acarreta maior ressecamento das mucosas, entre elas a mucosa oral denominada xerostomia ou boca seca (SCHLENKER, 1994).                                   O sistema renal diminui sua capacidade com a idade, assim como os idosos sentem menos sede que os mais jovens, gerando uma privação de água. Esta pode ocorrer por um distúrbio cognitivo, pela diminuição da sede ou por debilidade física. Contudo, a água deve ser controlada, assim como a dieta e os medicamentos, principalmente, para idosos que requerem um maior cuidado (SHILLS, 2006).                                                                              O equilibrio hidrico no idoso é tão importante quanto em outros grupos etários. Muitas vezes a desidratação passa desapercebida no idoso. Na ausência de problemas clínicos graves, o consumo de 30ml/kg/dia provavelmente é suficiente no idoso (SHILLS, 2006).

Vitaminas e Minerais:

O uso de suplementos vitamínicos e de minerais pelos idosos pode ser uma alternativa a ser considerada quando há consumo de dietas inadequadas ou alguma enfermidade específica. Porém, seu uso não pode ser extrapolado, visto que uma dieta equilibrada pode suprir as necessidades do indivíduo (SHILLS, 2006).

O cálcio é um dos principais micronutrientes relacionados com o envelhecimento, além de ser o mais abundante no corpo humano. O metabolismo do cálcio está diretamente relacionado com a perda da massa óssea ou osteopenia, podendo atingir a osteoporose. Além disso, a absorção de cálcio está diminuída no idoso, sendo mais um fator de contribuição da doença. A suplementação pode ser necessária para grupos de risco, como mulheres na pós-menopausa com histórico familiar da doença, raça branca, baixo peso, sedentárias e com exposição solar inadequada (FERREIRA, 2004).

Segundo as DRIs, a recomendação de cálcio para a população acima dos 51 anos é de 1200mg/dia (FERREIRA, 2004).

A vitamina D é um outro fator relacionado ao metabolismo ósseo, sendo necessário um controle adequado na ingestão deste nutriente. O estilo de vida do idoso, prática de atividade física, reposição hormonal e a genética devem ser levados em consideração. Além disso, o consumo de cafeína, alimento comum entre idosos, hábito de fumar e excesso de álcool podem comprometer negativamente a massa óssea (SHILLS, 2006).

Contudo, o acompanhamento do paciente idoso é extremamente necessário para que o mesmo tenha uma dieta equilibrada e mantenha a saúde (FERREIRA, 2004).

Bibliografia:

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Sobre Dra. Karina Carvalho - Nutricionista

Nutricionista Clínica, Nutricionista Esportiva, Nutricionista Estética, Nutricionista Funcional, Fitoterapia

Publicado em novembro 2, 2009, em Artigos Nutrição Clínica, Envelhecimento, Nutrição Clínica e marcado como , , , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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